NÃO PODEIS SERVIR A DOIS SENHORES

Há certa exigência nos nossos dias para a obtenção de produtos que mantenham a sua pureza original. Seja nos combustíveis, seja na alimentação, dá-se preferência àqueles que não têm misturas de elementos que os adulteram ou fazem render mais. Seja a gasolina, seja o vinho, são melhores sem água. O azeite sem óleo. A mistura de elementos, por muito semelhantes que sejam, não favorece a eficácia e a integridade do produto. Os produtos biológicos ou realizados de acordo com padrões e leis de pureza, são mais caros, e geralmente melhores. Ora, numa dinâmica contrária, está a religião. Se há algo em que hoje em dia se é pródigo em fazer mixórdias, muitas vezes de mau gosto, é nas coisas da fé. Misturamos as religiões e certas práticas, com grande facilidade, num mix de doutrinas inconciliáveis, por vezes até próximas, mas sempre paralelas. A pureza da Fé é uma coisa que parece não importar muito aos homens que escolhem as suas crenças como quem enche um carrinho de supermercado. Com aquilo que se gosta mais, muitas vezes o acessório e até mesmo o supérfluo. Ora, vários fatores contribuem para tal:

– O relativismo, pelo qual não pode haver nenhuma verdade externa, objetiva e subsistente, e o subjetivismo, pelo qual cada um constrói as suas próprias verdades. E a tirania do individualismo parece absoluta;

– A superficialidade pela qual queremos conhecer um pouco de cada coisa, mas não nos aprofundamos nem conhecemos verdadeiramente nada, tal como a alienação que torna os homens pouco comprometidos seja com que prática for, o que leva a pessoa a gostar de cada coisa de determinada religião e a não se comprometer com nenhuma;

– O acesso fácil às doutrinas de outras religiões, embora uma fé superficial, alimentada pela internet ou por uns cursinhos, escamoteia o amplo conhecimento daquela doutrina, conhecendo o devoto tão somente aquilo que interessou à outra religião divulgar; a doutrina é sempre a mais aliciante e a menos assertiva, para atrair os seus prosélitos;

– O argumento conciliador para aliciar fiéis: “Deus é o mesmo”, “pode-se aderir a práticas New Age mesmo sendo católico”, “não há problema em ser cristão e ser espírita” “há uma pessoa que até vai à igreja e ajuda as pessoas com umas orações”. Mais tarde, pedem compromissos que exigem muito mais à pessoa do que aqueles que ela tinha anteriormente. O argumento conciliador era apenas a “ponte” para aderir ao outro lado, depois promovem a rutura com a fé antecedente.

– A facilidade de divulgação e de visibilidade com recurso a estratégias de marketing, e quantos mais milagres e prodígios forem anunciados, maior atratividade terá; e hoje, as pessoas estão mais interessadas nos milagres de Deus, do que no Deus dos milagres. Uma prática que prometa a cura de doenças, a paz interior, a libertação das coisas nocivas, tornou as novas formas religiosas numa espécie de negócio hedonista, promessa de felicidade de uma terra sem céu;

– A visão maquiavélica, pela qual os fins justificam os meios, ainda que isso signifique “acender uma vela a Deus e outra ao diabo”, para obtenção dos fins pretendidos.

Dada a sede religiosa e de espiritualidades num mundo que ensina e vive o materialismo, explodiram uma variedade de realidades teosóficas, místicas, de religiões e até mesmo de seitas que descobriram aí um meio de explorar um vazio comercial, materializando-se muitos credos para uma mera satisfação temporal e apaziguamento de consciências, num negócio que move milhões a tantas organizações aproveitadoras, mal intencionadas ou até mesmo perversas. E consequentemente, o homem que tem a nostalgia do eterno, vai experimentando um pouco de tudo a ver o que mais o satisfaz, como se de uma droga legal se tratasse, um ópio, inebriante e alienador. A pessoa começa por não se desenraizar da religião primitiva, para ir experimentando novas emoções, até mesmo o cómodo ateísmo prático. Assim, não se diz completamente ateu, pois nos grandes eventos vai à missa e reza na necessidade, mas vive enquanto tal. Diz-se católico, mas consulta o tarot e frequenta a bruxa. Espírita, mas vai à missa e comunga. Mestre reiki e ministro extraordinário da comunhão. Evangélico, mas tem imagens do buda. Misturas só conciliáveis numa consciência laxa, que não quer aderir inteiramente nem a uma coisa, nem a outra. Parece que num mundo onde ser infiel ao matrimónio tornou-se comum, muito menos se é fiel a uma só fé. Parece melhor prostituir-se com outras, para usar uma linguagem forte e bíblica, aliás, comum aos profetas das grandes religiões monoteístas.

Os grandes líderes religiosos já se opuseram muitas vezes a essa mistura malfazeja. Na Arábia Saudita, o Islão, através do wahabbismo, procura purificar-se de muitas superstições e cultos estranhos aos muçulmanos. Um movimento que cresce, impulsionado pela razoabilidade e apoio que recebeu essa proposta e que já se estendeu pelas mesquitas de todo o orbe.[1] Religiões de matriz africana no Brasil, encabeçadas pela ialorixá falecida recentemente, mãe Stella de Oxóssi, já se declararam contrárias ao sincretismo. Tal como o Arcebispo da Bahia, D. Murilo Krieger, que em comunicado conjunto afirmou que o sincretismo dificulta o diálogo, pois é de posições distintas que é possível dialogar. De modo idêntico, o Papa Francisco expressou num encontro inter-religioso que as diferenças sinceras enriquecem e fomentam uma fraternidade que não se encontra na mistura das crenças.[2] A mescla só favorece a perda de identidade. Na Universidade Católica Portuguesa, há alguns anos, o Cardeal Walter Kasper, interrogado sobre a questão ecuménica e inter-religiosa, explicava que o diálogo entre as religiões não pretendia uma união doutrinária, pois isso não é possível a nenhuma, mas participações conjuntas na edificação da solidariedade e da paz. Pretende-se assim a construção de um mundo melhor, não uma fusão de crenças e práticas religiosas. Na verdade, o primeiro encontro de Assis entre os vários líderes religiosos do mundo, Orientais e Ocidentais, muçulmanos e cristãos, budistas e politeístas, com a presença São João Paulo II, levaria a uma unanimidade noticiada na época: eram contra todo o sincretismo religioso.[3] Ora, se a esmagadora maioria dos líderes religiosos é contra a mistura das crenças e das práticas, esta confusão só se pode instalar na vida de fiéis desavisados ou mal intencionados. Pelo menos, depois deste artigo, parece-me que mal informados não estarão mais.

A História relata-nos a má experiência de povos que trilharam caminhos religiosos ambíguos e confusos. Os Romanos adotaram divindades e práticas de modo indiscriminado, colecionando deuses estrangeiros e cultos estranhos, um politeísmo desenfreado. Queriam estar bem com tudo e com todos. Mas sabemos como isso contribuiu para a perda de identidade do povo e para o relativismo religioso, que levaria, entre outros motivos, à ruína de um dos Impérios mais poderosos que existiu à face da terra. A Bíblia relata também os desastres que acometeram um povo que tantas vezes se desviava da sua fé e da Aliança, tentado pelas práticas e pelos deuses dos gentios. Porém, a relação entre os povos, culturas e religiões não deve levar à confusão, mas ao reconhecimento e respeito pelas diferenças. Na mensagem de Natal à Cúria Romana, em 2017, o Papa Francisco deixou isso claro, explicando aos cardeais que “a relação da Igreja Católica com as outras religiões” deve ser vista “como um esforço essencial à construção de um mundo marcado pela ‘civilização do encontro’”, e que nesta matéria a Santa Sé trabalha sempre “na preservação da identidade ‘porque não é possível encetar um diálogo verdadeiro baseado na ambiguidade ou no sacrifício do bem próprio para agradar aos outros’”.[4] No seu livro Introdução ao Cristianismo — que levou o ainda jovem Ratzinger a sair do anonimato geral , o Teólogo alemão pensava num cristianismo futuro de pequenas comunidades, entretanto, mais puro, autêntico. Talvez precisemos rumar para esse futuro, e pedir aos católicos para não levarem vidas duplas, nem praticarem fésincompatíveis, para decidirem-se, para não escandalizarem. É preferível ter comunidades mais pequenas, mas de católicos autênticos, esforçados, fiéis, sem superstições e outras religiões. Pois como bem lembrava Jesus, “Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6, 24).

P. José Victorino de Andrade

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[1] “O wahabbismo defende a purga do Islão de «impurezas», como o culto popular dos santos, mesmo da festa muito popular do mulid (o dia do nascimento do profeta Maomé), de santuários e culto de túmulos e outras formas tradicionais, que são vistos como idolatria. O wahabbismo ganhou considerável influência no mundo muçulmano, financiado pelos petrodólares da Arábia Saudita, passou a financiar liberalmente mesquitas, escolas e programas sociais, todos executados por pessoal formado no pensamento wahabbita. Através de diversas organizações e instituições, como a Liga Mundial Muçulmana, a Assembleia Mundial da Juventude Muçulmana, a Federação da Associação Muçulmana da Grã-Bretanha e Escolas Islâmicas, a Arábia Saudita procura difundir o ensino, cultura e costumes do wahabbismo”. In: https://alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EFkVVEykFAGEjBUXaQ

[2] In: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-06/papa-dialogo-entre-religioes-diferentes-fonte-paz.html

[3] In: https://es.zenit.org/articles/encuentro-de-lideres-religiosos-en-asis-contra-todo-sincretismo-religioso/

[4] In: http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/vaticano/dialogo-interreligioso-papa-aponta-tres-frentes-essenciais-para-uma-logica-de-acolhimento-e-colaboracao/

 

 

fonte: https://aportesdaigreja.com/2019/04/05/nao-podeis-servir-a-dois-senhores/?fbclid=IwAR1pYrvFz97bBJdTyDCZeZ5Y-OXWksmEKSTmVNuZTGbVIkRf_7K1Od8r-pM

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